A candidatura do governador de São Paulo, João Doria, à Presidência da República em 2022 é um processo “em construção” e não uma decisão já tomada pelo PSDB, afirma o presidente nacional do partido, o ex-ministro e ex-deputado federal Bruno Araújo. Em entrevista ao Valor, Araújo sinaliza que Doria tem um caminho a percorrer se quiser ocupar um lugar ao centro na próxima disputa presidencial, e demonstrar capacidade de exercitar o diálogo com lideranças tanto à esquerda quanto à direita.
A geopolítica nacional costuma colocar governadores paulistas naturalmente à frente da fila, admite Araújo, mas ele cita com surpreendente entusiasmo os nomes do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e do senador Tasso Jereissati (CE) como outras alternativas que poderão ser consideradas pelo PSDB futuramente.
“Doria hoje é a alternativa mais objetiva, mas não podemos deixar de lembrar que temos outros quadros importantes no partido. Todo governador e todo senador do PSDB é sempre uma alternativa. Temos três governadores hoje: Doria, Eduardo Leite e [Reinaldo] Azambuja [do Mato Grosso do Sul].”
‘Doria é alternativa, mas temos outros quadros importantes’, diz Araújo
Eduardo Leite, pontua o presidente do PSDB, promove “com coragem reformas como as que propõe o governo federal”, mas com aspecto bastante distinto: “Dialogando com todos os setores envolvidos, não só comunicando pela imprensa”. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também tem ressaltado que Leite representa, no PSDB, o sentimento de “renovação política”.
Bruno Araújo foi, no PSDB, um dos principais articuladores do impeachment de Dilma Rousseff. Pela primeira vez desde que chegou ao comando nacional do partido, ele admite que os tucanos erraram ao pedir, em 2014, a revisão do resultado eleitoral, após Dilma derrotar Aécio Neves. “Sim, foi um equívoco. Acho que foi. Isso a gente aprende na história.”
Araújo justifica que se tratava de um momento de absoluta radicalização política, ímpar no país: “Diria que aquela decisão não tem a cara da serenidade institucional do PSDB. Mas não foi aquilo que derrubou Dilma Rousseff”, repete o tucano.
Ainda sobre releituras do passado, ele confessa que estava de fato determinado a deixar o Ministério das Cidades, no governo Temer, após a divulgação dos áudios da conversa do empresário Joesley Batista, da JBS, com o ex-presidente da República. Foi impedido por um grupo de senadores do PSDB. Em novembro de 2016, seis meses depois da divulgação do áudio que inviabilizou de vez a gestão Temer, Araújo entregou sua carta de demissão. “Quando a popularidade de Temer já estava no subsolo, aí ficou mais fácil fazer uma consideração de que foi um erro. Mas ninguém me procurou para dizer para não assumir o ministério. Ninguém procurou José Serra para não assumir”, desabafa.
O presidente nacional do PSDB enxerga um “largo, imenso” espectro político ao centro, ainda desocupado, enquanto o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva “se retroalimentam”. “No centro cabe nascer uma liderança natural que mostre aos brasileiros que há alternativas fora dos extremos, que dialoga com todos os setores da sociedade e não enxerga ninguém como inimigo. Pode ter adversário político, mas não inimigo”, sustenta.
Araújo diz nunca ter visto o Brasil debater com tanta antecedência uma eleição presidencial, mas admite que foi obra do próprio presidente Jair Bolsonaro, que falou de reeleição no início do mandato, e do governador Doria, que não esconde seu desejo. A libertação de Lula era a pitada que faltava para 2022 não sair mais da agenda política.
“Lula seguramente é a maior liderança individual política do país, não obstante também tem a maior rejeição.” O tucano aposta que cerca de três, quatro nomes podem surgir com um perfil de centro e acredita num cenário em que a polarização não necessariamente se dará entre o PT e a Aliança pelo Brasil, o novo partido que Bolsonaro quer construir.
O apoio do PSDB à reeleição de Bolsonaro é algo que Araújo descarta. “É uma das poucas coisas que não vejo.” O partido, segundo o tucano, será “artífice para ajudar as reformas necessárias, inclusive com a consciência de que todo esse bem econômico só terá uma pessoa que ganha do ponto de vista político-eleitoral: Jair Bolsonaro”. Ainda assim, qualquer atitude do atual governo que o PSDB considerar coerente para gerar crescimento econômico contará com apoio da legenda, enfatiza, a despeito das alfinetadas do ministro Paulo Guedes: “É recalque da Universidade de Chicago com a turma da PUC do Rio”, ironiza.
“Quem personificará o padrão da serenidade, com propostas de geração de emprego, de diminuição das desigualdades sociais e regionais, e com capacidade de dialogar, de sentar na mesa com Lula e com Bolsonaro, em sendo preciso?”, questiona. Chamando para si a responsabilidade, Araújo afirma que os todos os presidentes de partidos e lideranças partidárias precisam estar abertos e permitir que esses diálogos ocorram, deixando de lado, “num primeiro momento”, alternativas de nomes.
“Está muito cedo para definir como o eleitor vai ficar nisso. Do ponto de vista objetivo, o eleitor está no espectro de centro, mas politraumatizado com o PT e aceitando movimentos no campo mais conservador.” Lideranças como Doria e Luciano Huck, que começam a se movimentar de olho no centro, “vão ter que exercitar esse ambiente de diálogo e construção de convergência” em nome da preservação do espaço democrático. Já Ciro Gomes (PDT), na opinião do tucano, certamente “se afastou do lado mais radicalizado da esquerda”, restando a incógnita se caberá a ele algum figurino ao centro.
“Quanto mais nomes tivermos como opções, melhor para a sociedade brasileira e melhor para a democracia.” Sempre que questionado sobre o alinhamento de Doria com Bolsonaro na eleição de 2018 e as posturas conservadoras do governador paulista, em especial na área da segurança pública, Bruno Araújo enfatiza que há um processo de amadurecimento em curso e que o perfil conciliador precisa ser “exercitado”. O governador, observa, fez um enfrentamento político com o PT, o que é legítimo e ocorre no PSDB desde as eleições de 1989. Ele pondera, ainda, que Doria tem apenas três anos de vida pública. Um verdadeiro líder, enfatiza, precisa “dar demonstração de fluidez e conversar com todas as lideranças”. “Não tem que concordar, mas saber ouvir.”
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